Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
“A fiscalização das transações realizadas via Pix para fins de aumentar a base de rendimentos taxados pela Receita Federal é provavelmente a pior medida em termos de potencial negativo para a aprovação do Lula desde o início do seu terceiro mandato. E este impacto está ainda por vir”, advertiu o CEO do Atlas, Andrei Roman, poucos dias antes de o Palácio do Planalto recuar e revogar a norma que ampliava o monitoramento do Pix. A decisão, porém, veio tarde demais.
Enquanto o governo ignorava os sinais, as redes sociais fervilhavam de informações – muitas delas falsas – sobre as novas regras. Para se ter uma ideia do impacto das medidas nas plataformas digitais, o tema movimentou, nos 16 dias deste ano, mais de 5 milhões de menções, segundo levantamento do instituto Quaest, divulgado nesta sexta-feira (17).
A pressão foi tamanha que Lula não resistiu e reuniu representantes da Receita Federal para determinar a volta atrás no plano de monitorar o Pix. A decisão dividiu opiniões.
Para aliados petistas, o recuo reforçou a narrativa de que o governo buscava taxar os brasileiros por meio do Pix, mesmo com a Receita Federal negando essa intenção. Para outros, a falha na comunicação foi tão grave que não restava alternativa senão revogar as medidas.
“Foi um erro de timing, de tática e de diagnóstico do governo. Em rede social, a resposta deveria ter sido dada em 24h. O governo demorou a compreender o que estava acontecendo e entrou atrasado no assunto”, afirmou o diretor da Quaest, Felipe Nunes.
O sinal vermelho só seria ligado no Palácio do Planalto quando um vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira (PL) a respeito das regras do Pix atingiu mais de 200 milhões de visualizações. Mas a batalha da comunicação já estava perdida.
“O governo tem uma Secom, um ministro para isso, dezenas e dezenas de funcionários (e vários caciques) cuidando da comunicação governamental, os ministérios e a Receita tem mais pencas de gente de comunicação. Sem contar que contou com apoio firme do jornalismo e da televisão. E ainda assim toma um vareio desconcertante de um moleque de ensino médio, que deve ter mais dois moleques trabalhando para ele. Isso é ou não é um atestado monstruoso de incompetência em comunicação? Monstruoso!”, observou o professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Wilson Gomes.
Por erros como esse, é que o presidente Lula decidiu trocar o comando da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência. O publicitário baiano Sidônio Palmeira assumiu o posto – no lugar do deputado federal Paulo Pimenta (PT) – já no furacão da crise. Mas, para alguns analistas políticos, a falha não está só na comunicação.
A jornalista e comentarista política do jornal Folha de S. Paulo, Dora Kramer, acredita que a violência e a alta da inflação dos alimentos contribuem para a queda de popularidade do chefe do Executivo nacional.
“O governo dá pouca atenção a isso (a inflação) ao não reconhecer sua participação na crise de confiança no equilíbrio das contas e põe peso maior em secas e enchentes. Maquiagem da verdade é grave na oposição, mas não rende grandes danos. Quando parte de governos o bem solapado é a credibilidade que bate direto na popularidade”, escreveu ela.
A pesquisa mais recente sobre a avaliação do governo Lula, que foi divulgada na semana passada pelo Atlas, apontou que 49,8% dos brasileiros desaprovam a gestão, e 47,8% aprovam. Para Kramer, o sucesso do PT nas eleições de 2026 vai depender de reverter esse cenário.
“E não se trata só da disputa pela Presidência, com reeleição ou não. Há as eleições de governadores, senadores e deputados. Tarefa difícil à luz do desempenho da esquerda em 2024”, analisou.
Por Rodrigo Daniel Silva



