Foto: Luiz Silveira/Agência CNJ
O Primeiro Comando da Capital (PCC), considerado a maior facção criminosa do país, viu seu faturamento saltar de R$ 12 milhões para R$ 9,83 bilhões neste ano. O dado foi revelado pelo promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), em entrevista ao “Canal Livre”, na Band, no domingo (10).
Crescimento sem precedentes
Integrante do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e de Combate ao Crime Organizado) de Presidente Prudente, Gakiya afirmou que a expansão da facção foge a qualquer padrão conhecido. “Não existe nenhuma organização criminosa e nenhuma empresa lícita que tenha, em 20 anos, um crescimento tão extraordinário quanto teve o PCC”, afirma.
Principal fonte
Segundo o promotor, a principal fonte do grupo criminoso é o tráfico de drogas. “Na verdade, a gente tem que separar o que é o carro-chefe, o que é a forma de financiamento do PCC, que hoje é basicamente o tráfico internacional de cocaína para a Europa”, explicou.
Questionado de onde vem a droga, o promotor descreveu o trajeto.
“Ele [PCC] traz da Bolívia, do Peru e da Colômbia. Essa droga passa pelo Brasil. Eles compram lá em torno de 1.000 dólares o quilo nesses países produtores — só se produz nesses três países ali da América do Sul, os países andinos. Essa droga chega na Europa a 35, 40 mil euros em média, podendo chegar a 80 mil euros; chegou no ano passado na França a 80 mil euros. Se essa droga for para a Ásia — e já está indo — e também para a Austrália e para a Nova Zelândia, ela vale 150 mil o quilo. Não há nenhuma atividade criminosa no mundo que dê mais dinheiro hoje que o tráfico de cocaína”, explica.
Ainda segundo Gakiya, o Porto de Santos é uma das principais rotas. “Olha, a gente tem estimativa que 60% de toda a cocaína que passa pelo Brasil saia do Porto de Santos. E 90% dessa cocaína que sai do Brasil todo é por via marítima”.
E, complementa: “eles já estão na fase da lavagem de dinheiro. Porque esses bilhões que são auferidos com a venda da cocaína na Europa, eles vão precisar retornar para a economia e retornar para os cofres do PCC. E hoje eles não são mais como antigamente, que eles enterravam dinheiro, né? E nem tem como enterrar quantias tão grandes. Aliás, não há nem movimentação física. Eles usam operadores financeiros, criptoativos, doleiros… enfim, é uma série de transações que evita a movimentação física de dinheiro”.
Segundo o promotor Lincoln Gakiya, a atuação do PCC na economia formal passa, na ponta, por setores com baixa regulação e fiscalização. Ele aponta que a facção teria mirado inicialmente o ramo de combustíveis, especialmente postos de gasolina, justamente por apresentar maior opacidade e menor controle estatal. Nesse contexto, destaca o uso das maquininhas de cartão como parte da estratégia: ao registrar operações fictícias de venda, o grupo conseguiria inflar o faturamento declarado e, assim, inserir na economia formal recursos provenientes do tráfico internacional.
“Mas não para por aí. Aí vêm as fintechs, né? Que são os bancos digitais que foram criados para desburocratizar o sistema, para permitir que a população carente tivesse acesso ao sistema bancário que às vezes eles não conseguem ter no sistema bancário formal. Mas essa facilitação também chegou ao crime organizado. O Brasil tem mais de 2.000 fintechs hoje; ele só perde para o México e para a Colômbia. E quando eu vejo esse ranking eu fico preocupado também, né? Por que o México, a Colômbia e o Brasil têm tantas fintechs? Eu já peguei várias fintechs que foram criadas por integrantes do PCC para lavar o próprio dinheiro”, complementa.
Gakiya explicou também que, depois das fintechs, com a facilitação das regras do Sistema Financeiro Nacional, houve migração para os fundos de investimento. “Porque você abre empresas hoje nesse país — eu chamo esse fenômeno de “pejotização do crime” — você abre 100, 200 empresas em poucas horas sem que ninguém cheque nada. Por exemplo, aqui em São Paulo, as empresas são registradas na Junta Comercial, mas não há uma obrigatoriedade da Junta Comercial fazer uma checagem básica se aquele endereço realmente existe, a sede da empresa. Às vezes a gente tem numa favela 50, 100 endereços no mesmo local que não funciona nada. Então o sujeito abre empresas, essas empresas são fundos também de investimento, e os fundos vão parar, por exemplo, no fundo REAG e vão parar no Banco Master. Então vejam o tamanho do problema”, analisou.
Atuação internacional e alerta
De acordo com o promotor, o PCC já ultrapassou as fronteiras nacionais e se consolidou como um fenômeno global. A organização, segundo ele, está presente em todo o Brasil e também em 28 países. Diante desse cenário, Gakiya defende uma resposta articulada. “O esforço tem de ser nacional e internacional”, advertiu.
Estrutura e influência
Fundado em 31 de agosto de 1993, nos presídios paulistas, o PCC teria evoluído para uma estrutura comparável a uma máfia. Para o promotor, a facção ampliou sua atuação e hoje exerce influência em diferentes esferas. Atuando em instituições do Estado, economia informal e sistema financeiro, além de financiar campanhas políticas em períodos eleitorais. Gakiya também alertou para o risco de avanço desse poder. Segundo ele, há a possibilidade de o Brasil caminhar para se tornar um narco-Estado.
Classificação e histórico de violência
Apesar do histórico, o promotor descartou classificar o grupo como terrorista. “O PCC não é uma organização terrorista. Embora já tenha cometido várias ações terroristas, como atentados contra autoridades, uma delas o juiz Antônio José Machado Dias”, relembrou. O magistrado foi assassinado em março de 2003, em Presidente Prudente, a mando da facção.



